Ah, o amor...

O amor é o fogo que arde sem se ver. E como arde.

Fábulas animais I - O Urso, o Leão e a Tartaruga

.. e o Leão conheceu o Urso, num boteco barato, tomando pinga com mel, comendo ovo cozido e assistindo sexy time na TV a gato. Ninguém sabe muito bem por quê nem como, mas o Urso e o Leão viraram grandes amigos.

O Urso ensinou ao Leão como pegar um salmão fresquinho na pororoca. O Leão ensinou ao Urso como caçar um veadinho correndo pela savana. Com eles, ninguém podia.

- Fala pra mim, Leão, quem é fodão do reino animal?
- Cala boca, Urso. Não tá vendo que tá me atrapalhando?
- Você é o único leão que eu conheço que come zebra.
- Não fode. Você sabe que eu adoro esse rabinho listrado.
- Caralho, esse cara é louco. Vou dar um mergulho e ver se me dou bem com uma Jubarte.

Mesmo desse jeito rude, na contramão da natureza, os caras se adoravam. Frequentavam os botecos mais porcos do reino animal, jogavam bingo e tomavam pinga barata, e causavam alvoroço quando contavam suas histórias de caça. A mais pedida pela galera era aquela em que o Urso atacou uma praia na Espanha, e, segundo conta ele, agarrara por trás uma bela criatura, no que se transformou num famoso vídeo internet afora. Mas isso é outra história que abordaremos futuramente.

Grandes fanfarrões aqueles dois.

Mas houve o dia em que chegou a Tartaruga, bicho sábio e experiente, procurando pelos dois. Disse que tinha um recado de Deus pra eles. Naquele dia, o Urso e o Leão estavam de ressaca, após uma noite de esbórnia após aplicar um bem-sucedido boa-noite-cinderela numa lhama.

- Amigos, trouxe um recado de Deus pra vocês.
- Que merda é essa, Leão?
- Sei lá. Fala logo, vovozinha.
- Deus vai mandar 40 dias e 40 noites de chuva, e Noé vai construir uma Arca. Se vocês quiserem embarcar nela, vão ter que se arrepender dos seus pecados e pregarem a palavra de Deus, o único e verdadeiro Príncipe da Paaaaaaaaaaz.
- E, no último dia, o Sol retornará e...
Antes que pudesse terminar, o Urso pisou na cabeça dela e matou a centenária mensageira.
- Kaput.
- Que porra é essa, Urso?
- Sei lá, ouvi um cara estiloso de gravata falar isso.

Horas depois, no boteco mais fedido do Seringuete...
- Urso, que porra era aquela de chuva que a tartaruga tava falando?
- Sei lá, só sei que o Calango faz a melhor sopa de tartaruga da África.
- É, pode crer. Desce mais uma, Calango!

Moral da história: Deus ficou puto, não mandou a Arca, matou todo mundo e gastou mais 7 dias fazendo o mundo de novo. Mas dessa vez, botou mais uma pitada de sal da Tartaruga. A pedido do Leão.

Meu tio Helmut

Tio Helmut era um herói de guerra. Lutou nas mais sangrentas batalhas da segunda grande guerra. Não raro, juntava todos os netos e sobrinhos e destilava suas aventuras pelos campos da Europa, aniquilando aliados. "Trinta e quatro!" bradava ele, enquanto contava da vez em que fora cercado - sozinho, por 34 norte-americanos, e conseguira uma fuga espetacular, disfarçado de ovelha em meio a um rebanho que passava. Bradava "34" e batia a cabeça na mesa, freneticamente. Batia a cabeça porque não tinha noção. Nem braços.

Tio Helmut lutou na frente Leste do exército alemão. Às portas de Leningrado, com um grupo de russos ao seu encalço, arrastou-se sobre uma granada e perdeu os dois braços. Foi levado de volta a Berlim e ali ficou, internado, enfermo e maneta. Para ele, a guerra havia acabado. Restava o resígnio de ver, numa maca dura e fria, a sua brava Alemanha sucumbir perante os poderosos aliados.

Com o fim da guerra e sua Alemanha destroçada, fugiu como clandestino num navio com destino à américa do sul. E assim pisou, em dezembro de 1946, no porto de Santos, em São Paulo. Dormiu nas ruas, comeu migalhas, até que se apaixonou pela doce Tia Esmeralda, uma rica viúva do café. Tia Esmeralda era uma romântica à frente do seu tempo. Vira Tio Helmut ali, jogado na sarjeta e logo reconhecera-o como o Grande Amor da sua vida. Aquele lixo humano, sujo, bêbado e sem braços era o seu destino. Ela tinha certeza disso, eles se casaram e tiveram 4 filhos e 10 netos. E foram felizes até que tia Esmeralda se foi, vítima de tuberculose.

Com a partida da tia Esmeralda, Tio Helmut perdeu a noção. Abandonou o hábito do banho diário, tomava-os apenas quando queria, e ele nunca queria. Bebia o tempo inteiro e, frequentando os botecos mais desonrados da cidade, aprendeu a fumar maconha. Tio Helmut havia desenvolvido uma incrível habilidade com os pés. Desmanchava o bloco de maconha com o pé, fazia um baseado respeitável e fumava. Fazia tudo com o pé, menos uma coisa: Tio Helmut não conseguia bater punheta.

Enquanto tia Esmeralda era viva, sempre batia uma punheta pra ele. Depois que morreu, tio Helmut ficou sem a tradicional bronha. Olhava o rabo da empregada, ficava de pau duro e saía se esfregando pela parede como um cão, louco pra saciar aquela vontade incontrolável, mas não conseguia. Tio Helmut ficou obcecado.

E Tio Helmut agora vive assim. Bêbado, fumado, fedido e de pau duro.

Ouvi falar dele recentemente, quando um amigo o avistou num boteco sujo do centro da cidade, contando às crianças de rua as suas aventuras na guerra, batendo a cabeça na mesa e bradando: "14!!"

Essa história eu conhecia. Era a idade da garota belga que ele estuprara nas Ardenas.

E essa história nem era a sua preferida.

Definitivamente, Tio Helmut não é mais o mesmo.

T.O.C

Wilson tinha TOC. Transtorno Obsessivo Compulsivo. Quem tem TOC tem muitas manias. E Bruce tinha muitas delas. Era repetitivo e pragmático, para o resígnio de sua doce e dedicada esposa Daiane.

Wilson gostava de fazer sexo com Daiane. Mas gostava de fazer do seu jeito, o jeito TOC. Todos os dias, ao acordar, fazia sexo com Daiane. Todos os dias, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença. E gostava de esporrar na orelha direita de Daiane. Todas as vezes. E contava as gotas de porra, desde a puberdade. "Aaaaahhhh.... Quatro mil, seiscentas e trinta e quatro... Quatro mil, seiscentas e trinta e oito... ", diariamente.

Wilson tinha um emprego, burocrático como ele. Era escrevente, e trabalhava no forum criminal, digitando depoimentos de criminisos. Todos os dias, abria a máquina de escrever e ouvia histórias escabrosas, de crimes ediondos. Wilson tinha uma marca, uma característica só sua. Na última linha do último parágrafo de cada depoimento, Wilson adicionava um ponto seguido de uma vírgula. Era a sua assinatura, era a marca que ficava para o futuro indicando que Wilson havia digitado aquilo. Assim Wilson dava sua contribuição para a história. Terminava depoimentos do seu jeito, o jeito TOC, bem assim: ".,"

Mas Wilson tinha uma paixão secreta, a Mulher Aranha. Com ela, Wilson podia ser um herói, podia estar livre do TOC e do trabalho medíocre. Trepava com ela várias vezes por dia, sem esporrar na orelha direita, sem contar as gotas, na rua, no chão, na teia presa no Empire State, em qualquer lugar. Chegava no trabalho, abria a máquina de escrever, posicionava o gibi no colo e digitava freneticamente, abstraindo o depoimento do criminoso à sua frente, era como uma máquina. Ouvia e digitava, sem permitir que aquilo penetrasse o seu pensamento. Só voltava ao mundo real quando digitava ".," . Era a sua senha, a porta de saída.

Certa vez, Wilson chegou em casa, e a doce Daiane lhe esperava. Sensual, e por se tratar de uma bela mulher, Daiane logo tinha Wilson entre as coxas. Mas desta vez, Wilson não contou a porra. Nem gozou na orelha direita, nem na esquerda e nem em orelha nenhuma. Foi um orgasmo comum, simples e quente. E Daiane, doce, sensual e dedicada como sempre, desferiu-lhe 18 tiros. 9 no rosto, 9 no coração. Do seu jeito, o jeito TOC.