Wilson tinha TOC. Transtorno Obsessivo Compulsivo. Quem tem TOC tem muitas manias. E Bruce tinha muitas delas. Era repetitivo e pragmático, para o resígnio de sua doce e dedicada esposa Daiane.
Wilson gostava de fazer sexo com Daiane. Mas gostava de fazer do seu jeito, o jeito TOC. Todos os dias, ao acordar, fazia sexo com Daiane. Todos os dias, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença. E gostava de esporrar na orelha direita de Daiane. Todas as vezes. E contava as gotas de porra, desde a puberdade. "Aaaaahhhh.... Quatro mil, seiscentas e trinta e quatro... Quatro mil, seiscentas e trinta e oito... ", diariamente.
Wilson tinha um emprego, burocrático como ele. Era escrevente, e trabalhava no forum criminal, digitando depoimentos de criminisos. Todos os dias, abria a máquina de escrever e ouvia histórias escabrosas, de crimes ediondos. Wilson tinha uma marca, uma característica só sua. Na última linha do último parágrafo de cada depoimento, Wilson adicionava um ponto seguido de uma vírgula. Era a sua assinatura, era a marca que ficava para o futuro indicando que Wilson havia digitado aquilo. Assim Wilson dava sua contribuição para a história. Terminava depoimentos do seu jeito, o jeito TOC, bem assim: ".,"
Mas Wilson tinha uma paixão secreta, a Mulher Aranha. Com ela, Wilson podia ser um herói, podia estar livre do TOC e do trabalho medíocre. Trepava com ela várias vezes por dia, sem esporrar na orelha direita, sem contar as gotas, na rua, no chão, na teia presa no Empire State, em qualquer lugar. Chegava no trabalho, abria a máquina de escrever, posicionava o gibi no colo e digitava freneticamente, abstraindo o depoimento do criminoso à sua frente, era como uma máquina. Ouvia e digitava, sem permitir que aquilo penetrasse o seu pensamento. Só voltava ao mundo real quando digitava ".," . Era a sua senha, a porta de saída.
Certa vez, Wilson chegou em casa, e a doce Daiane lhe esperava. Sensual, e por se tratar de uma bela mulher, Daiane logo tinha Wilson entre as coxas. Mas desta vez, Wilson não contou a porra. Nem gozou na orelha direita, nem na esquerda e nem em orelha nenhuma. Foi um orgasmo comum, simples e quente. E Daiane, doce, sensual e dedicada como sempre, desferiu-lhe 18 tiros. 9 no rosto, 9 no coração. Do seu jeito, o jeito TOC.
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