Segunda-feira, 4 de Junho de 2007

Meu tio Helmut

Tio Helmut era um herói de guerra. Lutou nas mais sangrentas batalhas da segunda grande guerra. Não raro, juntava todos os netos e sobrinhos e destilava suas aventuras pelos campos da Europa, aniquilando aliados. "Trinta e quatro!" bradava ele, enquanto contava da vez em que fora cercado - sozinho, por 34 norte-americanos, e conseguira uma fuga espetacular, disfarçado de ovelha em meio a um rebanho que passava. Bradava "34" e batia a cabeça na mesa, freneticamente. Batia a cabeça porque não tinha noção. Nem braços.

Tio Helmut lutou na frente Leste do exército alemão. Às portas de Leningrado, com um grupo de russos ao seu encalço, arrastou-se sobre uma granada e perdeu os dois braços. Foi levado de volta a Berlim e ali ficou, internado, enfermo e maneta. Para ele, a guerra havia acabado. Restava o resígnio de ver, numa maca dura e fria, a sua brava Alemanha sucumbir perante os poderosos aliados.

Com o fim da guerra e sua Alemanha destroçada, fugiu como clandestino num navio com destino à américa do sul. E assim pisou, em dezembro de 1946, no porto de Santos, em São Paulo. Dormiu nas ruas, comeu migalhas, até que se apaixonou pela doce Tia Esmeralda, uma rica viúva do café. Tia Esmeralda era uma romântica à frente do seu tempo. Vira Tio Helmut ali, jogado na sarjeta e logo reconhecera-o como o Grande Amor da sua vida. Aquele lixo humano, sujo, bêbado e sem braços era o seu destino. Ela tinha certeza disso, eles se casaram e tiveram 4 filhos e 10 netos. E foram felizes até que tia Esmeralda se foi, vítima de tuberculose.

Com a partida da tia Esmeralda, Tio Helmut perdeu a noção. Abandonou o hábito do banho diário, tomava-os apenas quando queria, e ele nunca queria. Bebia o tempo inteiro e, frequentando os botecos mais desonrados da cidade, aprendeu a fumar maconha. Tio Helmut havia desenvolvido uma incrível habilidade com os pés. Desmanchava o bloco de maconha com o pé, fazia um baseado respeitável e fumava. Fazia tudo com o pé, menos uma coisa: Tio Helmut não conseguia bater punheta.

Enquanto tia Esmeralda era viva, sempre batia uma punheta pra ele. Depois que morreu, tio Helmut ficou sem a tradicional bronha. Olhava o rabo da empregada, ficava de pau duro e saía se esfregando pela parede como um cão, louco pra saciar aquela vontade incontrolável, mas não conseguia. Tio Helmut ficou obcecado.

E Tio Helmut agora vive assim. Bêbado, fumado, fedido e de pau duro.

Ouvi falar dele recentemente, quando um amigo o avistou num boteco sujo do centro da cidade, contando às crianças de rua as suas aventuras na guerra, batendo a cabeça na mesa e bradando: "14!!"

Essa história eu conhecia. Era a idade da garota belga que ele estuprara nas Ardenas.

E essa história nem era a sua preferida.

Definitivamente, Tio Helmut não é mais o mesmo.

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